Miguel Vale de Almeida

Tinha 13 anos e não me lembro muito bem. Porque tinha 13 anos e porque nunca me lembro muito bem de nada. Mas tenho uma coleção de flashes.

O primeiro flash. Partilhava o quarto com o meu irmão mais velho e ele estava estranhamente atento à rádio na noite de 24 para 25. Grudado à rádio a noite inteira, e depois nós, o pai, a mãe, eu — a minha irmã era muito pequenina. Bem, ele trabalhava no Rádio Clube, que foi quartel-general radiofónico da revolução, e que era dois ou três prédios acima do nosso, na Rua Sampaio e Pina. Ele sabia alguma coisa. Nunca perguntei mais, mas ele sabia alguma coisa.

O segundo flash. A rua fechada por tropa e nós impedidos de sair do prédio — e, mais tarde, veículos da tropa a passar na Rua Castilho… Acho… Ou seriam pessoas? Não sei bem…

O terceiro flash. Era preciso comida, mas não se podia sair do prédio  e a rua fechada —, por isso os vizinhos começaram a solidarizar-se, oferecendo partilha de comida (acho que naquele tempo não se congelava, não se comprava muito de coisa nenhuma, não se acumulava — em suma, não se consumia).

O quarto flash. Queríamos sair, queríamos celebrar. Não podíamos. Ou porque estávamos ali trancados, ou porque, dias mais tarde, eu era supostamente demasiado pequeno para sair sozinho.

O quinto flash. Lembro-me bem de, na semana seguinte, estar na manifestação do primeiro 1º de maio, no estádio do INATEL, então FNAT (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho  que risota (not) fascistóide). Vi o Cunhal, vi o Soares. Só não lembro com quem fui. Que raios, por que não me lembro de com quem fui? Mas lembro-me de outras coisas, anteriores e posteriores. Lembro-me, anos antes, da notícia da morte do Salazar ter feito os meus pais darem um grito de alegria que, no segundo seguinte, reprimiram em auto-censura. Estávamos a atravessar a ponte Salazar que, depois, seria a ponte 25 de abril. E lembro-me, pouco depois, logo a seguir ao período revolucionário, de ser comunista, ser perseguido no liceu pela extrema-esquerda que viria a ser a direita que nos governa, de ensinar velhinhos a ler e escrever no Alentejo e, depois, de largar tudo isso e querer que tudo fosse normal, normal, normal. Mas nada disso interessa. O que interessa é que escrevo isto sentindo que parte do sentido se perdeu ou foi roubado, e que o que vivemos desde que inventaram a “crise” é uma merda muito grande, uma muito grande merda e estou muito zangado e não me interessa grandemente a memória. Quero fazer alguma coisa, alguma coisa que nos prenda à rádio a noite inteira.

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