João A. Grazina

Aquele dia 24 foi igual a todos os outros das últimas semanas: havia no ar uma inquietação difícil de explicar. Pressentia-o, quem sentia a asfixia da falta de liberdade de não poder por ler nos transportes um livro proibido, sem ter que lhe colocar uma capa. Foi isso que me livrou numa carga policial, umas semanas antes, quando o polícia mo retirou debaixo do braço para o conferir, mas o stress da luta não lhe deu paciência para o folhear.

No caminho para casa encontrei um amigo e a conversa começou como invariavelmente começava: “Então?”. Fizeram-se aqueles olhares laterais de segurança, e lá se trocaram algumas informações que nos alimentaram a esperança. O jornal República foi comprado depois da saída do trabalho, com o mesmo tom: em voz alta, como que para dizer aos mirones das primeiras páginas que não deveriam perder-se na escolha.

Recordo-me de ter reunido naquela semana em casa do João, na Estefânia, para ouvir umas gravações de canções de intervenção, poesia, textos, e simples colectâneas com retalhos de intervenções bacocas de Américo Tomás, que muito nos divertiram. Tudo aquilo com um nível de som para não nos comprometer. Ainda hoje não sei como as obtinha, porque não era um tipo tão politizado assim, e fazia até parte de uma certa burguesia bem instalada da cidade, o que dá para perceber que alguma contestação já circulava fora dos circuitos verdadeiramente politizados.

− Acorda, filho! Não podes ir trabalhar que houve uma revolução… Estão a dizer na rádio.

Dei um salto da cama, liguei a aparelhagem de som e coloquei uma cassete que ali tinha para gravar o que estivesse a ser transmitido. Seguiram-se alguns largos minutos de angústia. Quando percebi que o que estava acontecer não era um golpe de direita, fui para a cozinha e abracei a minha mãe, foi inevitável: talvez tenham sido as minhas primeiras lágrimas de alegria. Se calhar não foram, mas foram apenas aquelas que fixei.

Guardo ainda hoje esse extrato da gravação do pronunciamento do MFA, e o jornal República comprado na Praça da Estação. Ainda hoje lamento não ter vindo para Lisboa, para assistir à festa, por respeito aos muitos pedidos que a minha pobre mãe me fez.

Os dias que se seguiram foram uma vertigem, porque trabalhava no Rossio. Estava no 1º balcão e a festa era cá em baixo, na plateia que era aquela praça. Ainda andei por ali a correr nos dias seguintes, quando alguém gritava que era um pide. De repente, uns tiros para o ar e subimos todos pelas escadas acima na Rua 1º de Dezembro.

Foram dias de festa. Uma festa sentida, que fica melhor explicada com a ajuda de Pessoa: “Não sente a Liberdade, quem nunca viveu constrangido”, no Livro do Desassossego.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s