António Lança de Carvalho

Ainda não eram oito da manhã quando o velho e pesado telefone de baquelite tocou. Era um amigo a avisar de movimentos de militares. Sentei-me com o meu pai no escritório, ele estava de cara fechada…”O Almeida Bruno preso na Trafaria, mais aquela palhaçada da brigada do reumático, isto pode ser uma golpada do Kaúlza e companhia…”, dizia ele, de si para si.

Ligámos a televisão…Mira técnica! Ligámos o rádio, Rádio Clube Português…Marchas militares, nada de elucidativo! Passados momentos, ouvimos o comunicado do MFA, o rosto do meu pai desanuviou-se: “Queres ver que é desta!”, exclamou, e correu para o telefone. Eu fui espreitar pela janela do meu quarto: a Casa da Moeda estava cercada por blindados. Vesti-me à pressa e passados poucos minutos estava a oferecer-me como voluntário ao furriel que comandava as tropas!

Ele sorriu, pousou-me a mão no ombro e disse: “Obrigado, mas não deve ser preciso!”

Fiquei desiludido! Então havia uma Revolução e nem sequer me davam uma espingarda?!?

Voltei para casa. A rádio relatava o que se estava a passar na zona do Terreiro do Paço como se fosse um relato de jogo de futebol!

Fui a pé, do Saldanha até à Baixa. Quando lá cheguei, já o epicentro dos acontecimentos se tinha deslocado para o Largo do Carmo. Foi para lá que me dirigi.

O Largo era um mar de gente que os soldados continham a custo. Os transístores (pequenos rádios portáteis, para quem não sabe) repetiam incessantemente o apelo do MFA para que a população se mantivesse em casa… Em vão!

Foi lançado um ultimato para a rendição do quartel do Carmo. Os militares tentavam desesperadamente convencer as pessoas a evacuar o largo e a protegerem-se, mas éramos cada vez mais e sem qualquer intenção de sair dali. Tenho hoje a noção de que aquele mar de gente teria tomado o quartel “à unha” se necessário fosse!

Depois veio a notícia da rendição e a chaimite que havia de levar Marcello Caetano. A pouco, a multidão foi dispersando, embora se notasse que não sabiam o que fazer a seguir. Alguém disse que os Pides estavam a fugir da António Maria Cardoso pelos telhados…

De nariz no ar, à procura de Pides, lá fui para a António Maria Cardoso. A multidão não era tão grande como no Largo do Carmo, mas era compacta. Gritava-se “Morte à Pide!” a plenos pulmões.

De repente, das janelas choveram tiros. Ouvi silvar as balas, vi pessoas cair ao pé de mim, outras atropelando-se na debandada. Vim a saber mais tarde que tinham morrido quatro pessoas; o número de feridos acho que ninguém nunca saberá…

Voltei para casa lá para as nove e meia, provavelmente quando o meu corpo me lembrou que ainda não tinha comido nada nesse dia!

Contrariamente às minhas expectativas, o meu pai nem se zangou com o meu “desaparecimento”! Limitou-se a soltar um “Até que enfim que apareces!”, de alívio.

Rádio e televisão estavam ligados, o telefone não parava, a nossa casa — e o País — era como um enorme caldeirão de magma em ebulição!

Ficámos os dois à espera de notícias.

Cerca da meia-noite e meia, veio a comunicação da “Junta de Salvação Nacional”. Em silêncio, íamo-nos entreolhando, à medida que eram apresentados os elementos da Junta. “O Silvério Marques?!?”, exclamou o meu pai. Ouvimos com atenção a “proclamação”. Lembro-me, no fim de ter dito ao meu pai: “Pois é, pai, isto não foi uma revolução, foi um despertador”. Ele nunca mais se esqueceu desse meu comentário!

Os dias seguintes deram-me razão: as primeiras “guerras” foram pela libertação incondicional dos presos políticos e pelo estabelecimento do 1º de Maio como feriado. Ganhámos ambas!

No primeiro “1º de Maio” lá estava eu, grão de areia nesse enorme orgasmo colectivo!

Foi a primeira — e até hoje, a última vez — que eu tive essa sensação de se ter cumprido um destino, não no sentido fatalista, mas no sentido de devir, de algo que tinha DE SER!

Nunca mais fui o mesmo, não me arrependo e não desisto de tudo com o que colectivamente sonhámos! E, como diz o meu querido José Mário Branco: “E sempre que Abril aqui passar, dou-lhe este farnel para o ajudar!”

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