Cláudia Santos Silva

Eu tinha 9 anos e o meu irmão 7. Não fomos à escola. No final da manhã, o meu Pai chegou a casa feliz e, com os olhos rasos de água, disse: Agora já podemos falar!

Quando ligámos a televisão, a mira técnica tinha por música de fundo a marcha de libertação dos escravos, da Aida, de Verdi. Estávamos tão felizes todos, eu e o meu irmão nem sabíamos bem porquê.

Nos dias que se seguiram, começou um tempo novo. Na escola, a funcionária retirou os retratos de Salazar e Caetano da parede, suspirando que as colónias iam ser devolvidas aos pretos, vejam só, e nós que fizemos tanto por eles… Interrogado o meu Pai, vi cerrar-se-lhe o semblante, sentou-me nos joelhos e falou-me da guerra. E também da polícia política e dos presos, das perseguições, de Caxias e do Tarrafal. Só pensava no tanto que me tinham mentido.

Já não sei em que dia vi, na televisão, a libertação dos presos políticos de Caxias, mas lembro-me do meu Pai embargado de comoção.

Uns dias mais tarde, a população de uma aldeia vizinha da cidade onde morávamos, fez uma manifestação a reclamar eletricidade. De noite, com as velas, os candeeiros de petróleo, as tochas, as candeias penduradas nos carros de bois, atravessaram as ruas da cidade às portas da qual viviam. Eram dois mundos diferentes, como o de outras tantas aldeias pelo país fora.

Um tempo novo começara.

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