Rui David

Foi há uns incríveis quarenta anos e quase parece impossível. 

O dia 25 de Abril de 1974 não se afigurava promissor. Era mais um dia em que estava previsto eu entrar a salto no Técnico, iludindo a vigilância da polícia que o cercava. Fazia-o duas ou três meses por semana, havia uns três meses, saltando o muro num ponto onde os polícias de patrulha não tinham normalmente ângulo de visão, graças ao côncavo formado pela rotunda da estátua do António José de Almeida. As calças que eu vestia normalmente ficaram em casa da minha Mãe e ainda hoje ostentam, nos joelhos, restos da caliça que se desprendia do muro quando nele roçavam enquanto eu tentava erguer-me até ao topo.

Eu e cerca de setenta outros colegas estávamos expulsos desde o início do ano lectivo. Esta fora a tentativa do então director, António Salles Luís, de erradicar a subversão no Técnico, intimidando os estudantes com veleidades oposicionistas, e que participassem em qualquer acção de protesto, com a expulsão imediata — o que, passados vários meses desde o início do ano, ainda se verificava com alguma frequência — e, sobretudo, de impedir a contaminação dos novos alunos do primeiro ano pelos gérmenes da política — o que, naquele tempo, só podia significar problemas para o normal desenvolvimento das actividades pedagógicas. A Associação de Estudantes estava, como muitas outras, encerrada pela polícia.

Eu tinha sido encarregue, pelo grupo de activistas a que pertencia, de precisamente introduzir esse vírus entre os estudantes do primeiro ano. Expulso, a única forma de entrar no Instituto era a salto, e depois tentar contactar discretamente estudantes do primeiro ano e lançar as bases de Comissões de Curso, formas básicas de organização dos estudantes na defesa dos seus interesses pedagógicos.

Sinceramente, quando me propuseram a tarefa, duvidei muito da sua exequibilidade. Mas o certo é que, por pura sorte — uma sorte que o “ar do tempo” propiciava , eu tinha topado, a partir de contactos furtivos, feitos à entrada e saída das aulas, com um grupo excepcionalmente inteligente, corajoso e dinâmico de jovens colegas, que rapidamente puseram o primeiro ano, que o Director julgava estar protegido “da política” numa redoma, em polvorosa. Por pura sorte, também, e ao arrepio das probabilidades, nunca fui surpreendido por nenhum Nívea de passagem, durante os dez segundos que me demorava a saltar o muro e entrar nos jardins das traseiras, ou, quando saltava para o exterior, nunca fui detectado por nenhum polícia ou contínuo, nunca nenhuma das nossas reuniões, feitas no jardim do lado da Rovisco Pais, despertou curiosidades indesejadas, nem fui detectado quando assisti a acções de reinvindicação no interior de anfiteatros apinhados de estudantes, uma delas, uma monumental pateada ao atónito Director.

O certo é que não era fácil, psicologicamente, manter aquela rotina, por muito que, uma vez lá dentro, as reuniões e o progresso acelerado da constituição do núcleo duro, organização, debate de perspectivas e sugestão de acções, fossem uma descarga de adrenalina. Sobretudo porque havia sempre aqueles dois momentos críticos, a entrada e a saída; e ainda mais porque não havia fim à vista de um regime que parecia eternizar-se.

Nas circunstâncias em que me encontrava, as perspectivas não eram brilhantes. Encaixar-me no sistema, era ainda possível, sim, mas parecia-me uma perspectiva ainda menos brilhante.

Nessa noite, excepcionalmente, dormira em casa dos meus pais, já que naquele tempo levava uma vida de nómada sem poiso certo, circunstância que, por paradoxal que possa parecer, me agradava bastante, apesar da rigorosa frugalidade que lhe estava associada. Por outras palavras, andava a pé e comia repetições nas cantinas universitárias porque não tinha um tostão no bolso.

A minha Mãe, sempre em alvoroço com o meu estilo de vida, por mim e pelos prejuízos que hipoteticamente poderia fazer à carreira do meu Pai, acordou-me por volta das oito da manhã, pedindo-me para não sair de casa, porque havia uma Revolução e estavam a dizer na rádio para ninguém sair de casa. O meu Pai, oficial da Marinha, diligente e bem comportado militar do quadro, saíra de casa muito cedo para se apresentar ao serviço na rua do Arsenal, onde estava colocado, julgo eu que no Centro de Comunicações da Armada. Mas a minha Mãe, não sei porquê, tinha um verdadeiro pavor de revoluções — um dia, em criança, ainda nos anos cinquenta, fomos surpreendidos, na Baixa, por uma carga da GNR a cavalo, e tenho perfeitamente na memória a imagem de um GNR de sabre brandido a gritar, do alto do cavalo, para um manifestante ou transeunte, enquanto um desconhecido ajudava a minha Mãe a esconder-se comigo e com a minha irmã na entrada de um prédio.

Para mim, uma revolução só podia ser um golpe militar, e naquela época, ninguém dos círculos que eu frequentava confiava um milímetro que fosse nos militares. Na pior das hipóteses, seria o temido “golpe do Kaúlza de Arriaga”, um general que era a referência da extrema-direita e a perspectiva da radicalização/brutalização do regime. Na melhor das hipóteses, as movimentações militares, de que chegavam ecos desde o 16 de Março, eram vistas, no ambiente em que eu me movimentava, com um desprezo bem patente no título inesquecível de um artigo de um panfleto clandestino ligado ao PCP (m-l) : “Insubordinam-se os mercenários do capital”.

Preparava-me para ir para a rua saber novidades e decidir o que fazer, quando meu Pai regressou a casa. Contou, com a sua habitual ironia muito contida, que no Ministério, ao passar por um buraco estranhamente aberto numa parede, quase fora atropelado pelo Ministro da Marinha, o corpulento almirante Pereira Crespo e outros responsáveis do regime, que por ele fugiam. Não ouvi mais detalhes porque saí para a rua.

Ao chegar às imediações do Técnico, não havia polícia a cercá-lo e os portões do lado da Alameda estavam abertos, sem o famigerado sistema de controle de entradas. Havia um ajuntamento à porta do Pavilhão Central.

Quando me aproximei, discursava empolgadamente um assistente conhecido como o “Pai Abreu”, pai do dirigente da Associação do Técnico e futuro vereador da Câmara de Lisboa, António Abreu. Outros estudantes discursaram. Do meu grupo falou o Rui Lobão, cuja intervenção terminou, para alguma surpresa minha, com a palavra de ordem: “Pão, Paz, Terra, Liberdade, Democracia e Independência Nacional”. Surpresa, porque se trava da palavra de ordem de uma organização política clandestina e eu ainda estava em modo 24 de Abril e, até esse dia, o meu grupo fazia, por vários motivos, uma separação muito clara entre actividades estudantis e actividades políticas.

A mim parecia-me errado, para não dizer estupidamente imprudente, uma pessoa assumir publicamente a simpatia por uma organização política clandestina sem se saber exactamente o que se estava a passar. Por outro lado, achava um absurdo que essa organização estivesse tão próxima das lutas estudantis, quase replicando a promiscuidade suicidária entre militantes estudantis e revolucionários, que se criticava ao MRPP. Infelizmente, esse pressuposto, no que significava como fragilidade de uma organização que se vangloriava nos panfletos clandestinos de um forte apoio popular e operário, era verdadeiro, ainda que no caso concreto não passasse de mero voluntarismo ditado pelo entusiasmo do momento.

A multidão apinhada à porta do Pavilhão Central decidiu reabrir a Associação de Estudantes, havia muitos meses encerrada pela polícia, na sequência da prisão do seu presidente, Carlos Costa, num comício na cidade universitária. E é tudo o que lembro do dia 25 de Abril.

A partir daqui é o blackout. Um blackout seco, sem sequer a dimensão épica da deriva gratuita de um Luiz Pacheco transportado numa névoa etilizada pela periferia dos principais focos de acção. Uma amálgama de imagens fugidias que tanto podem ser do dia 25, como de um qualquer dos outros, até ao Primeiro de Maio: a invasão do Conselho Escolar e expulsão do Director, pequenos comícios espontâneos, na rua, manifestações, aqui e ali, com mais e menos gente, mais ou menos espontâneas, a alegria nas ruas, a gradual transformação física que sobrevém quando o corpo se começa a adaptar ao facto de ocupar a rua sem a tensão e estado de alerta necessários para reagir a qualquer ataque da polícia, previsível ou inesperado, tantas vezes na forma de pides à paisana ou de níveas surgidos do nada. Alívio. Página em branco. Tudo em aberto. O resto é História.

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