Eduardo Francisco Rêgo

25 de Abril: não ouvi o E Depois do Adeus, nem a Grândola: as primeiras notícias, vagas, só de manhã a caminho da faculdade, já perto dos Leões, depois as primeiras impressões trocadas no Piolho, as primeiras confirmações…

Pela noite a liberdade já andava à solta e era sentida como certa e imparável…

Vivíamos numa prisão, mas estranha com os seus grandes janelões envidraçados — “víamos, ouvíamos e líamos não podíamos ignorar”… Dentro, o ar viciado, rarefeito, cada vez mais irrespirável… A sensação de liberdade do 25 de Abril não foi tanto a da súbita luz sobre recantos sombrios da prisão e abrindo ao espanto uma paisagem exterior desconhecida, mas mais a do ar fresco finalmente a circular, sair do sufoco, as janelas e portas finalmente abertas, um encher amplo do peito na frescura de um imenso alívio…

As mil dúvidas e interrogações, as incertezas, não traziam colados o medo e insegurança que voltam a trazer agora, 40 anos depois; não definiam, por si sós, por serem colocadas, campos à partida irreconciliáveis, destinos divergentes: essa fria realidade ganharia nitidez mais tarde, com o decorrer dos meses, com as primeiras fissuras a estalar o nosso deslumbramento…

Lembro-me da sensação, ilusória necessariamente, como se veio rapidamente a revelar, de haver uma universal comunhão em grande euforia e excitação, num propósito único e comum…Uma utopia de sentido único que a (quase) todos dirigia, era essa a ilusão.

A densidade de participação cívica e de coesão social foi a maior da nossa história, nesses breves meses, ou só semanas, que se seguiram. Essa é a minha grande saudade: a sensação dessa enorme coesão social, que via concretizar-se em acções conjuntas de muitos grupos de pessoas, solidárias e sonhadoras…

Mais do que as grandes memórias, do 1º de Maio, das multidões nas ruas, dos momentos de extrema emoção e simbolismo, como a chegada de Cunhal, que me parecem agora, à distância de 40 anos, de tipo fotográfico, lembro, de forma mais sentida, coisas mais pequenas mas em que participei directamente na ilusão dessa enorme solidariedade activa; as pequenas reuniões de trabalho com amigos e colegas a que se associava uma certa boémia de algumas noites em branco: como organizar o vazio das aulas que tinham parado naquele 2º semestre e o governo da faculdade…

A primeira grande RGA de Ciências, sem a ameaça dos gorilas, e a decisão de suspender deliberações porque se decidiu esperar pelo regresso de Ruy Luiz Gomes, prestes a chegar e que seria em breve Reitor da UP…

Depois, grandes decisões que hoje parecem tão erradas: a separação de engenharia e ciências (o maior erro); a grande perda pedagógica e científica que representaram os saneamentos de alguns professores que, na nova (des)ordem, já não tinham qualquer poder para influenciar negativamente, em termos políticos ou de governo da escola, o que quer que fosse…

O lirismo absurdo de certos aspectos dessa nova (des)ordem escolar, experimental: lembro-me de fazer parte, como representante dos alunos, de uma comissão científica das matemáticas e ter tido parte activa, juntamente com os professores que integravam essa comissão, numa reunião em que se decidida a proposta de dois professores passarem à categoria de ‘extraordinários’ (a categoria que mais tarde, com a lei Cardia, foi equiparada a catedrático!): e o meu voto também contou num dos casos!

As passagens administrativas e os súbitos regressos à faculdade e ao curso de antigos alunos: algum oportunismo sim, mas também a iniciativa de cobrir a paragem das aulas com aulas organizadas por nós com exposições de “novas” matérias: foram por certo aulas muito fracas pedagógica e cientificamente, nessa bondade anárquica, mas para muitos a sinceridade da intenção e da dedicação era enorme…

FIssuras: aos poucos mas céleres, apareceram, a crescer e irradiar como na cal das paredes: a anunciar a crua realidade da separação de grandes campos; ou somente a minha inadequação psicológica a certos níveis extremos de emoção e de escolha (uma fraqueza de angústia existencial, revelada então e que nunca superei…)

Com amigos e família, todos sentados no chão do Palácio de Cristal, a ouvir a canção de intervenção: não recordo os nomes de todos os artistas, nem as canções, mas que Paco Bandeira apareceu para participar e não foi aceite, não o deixaram cantar… E tive pena dele

A extrema-esquerda e a UEC na universidade (nem os tempos de crise, 40 anos depois, e a monstruosidade do adversário comum, conseguiram superar as eternas fissuras da esquerda).

Muitas discussões quase sem argumentos, reduzidas à repetição maníaca de classificações simplistas: fascista, reacionário, burguês (mas palavras tão úteis e descritivas, tanto então como hoje, para usar numa conclusão!)

Os primeiros grandes comícios, também no Palácio: a emoção extrema de um pavilhão cheio a clamar em uníssono e de punho no ar palavras de ordem, como “assim se vê a força do PC”, e eu não me conseguir juntar; não por divergências políticas, então, mas por uma insuperável timidez…

Passar no Palácio à saída de um comício do PPD e descobrir com misto de espanto e alguma desilusão alguns amigos e colegas…

O som de explosões em algumas noites no Porto: a anunciarem as mortes que a direita radical viria a fazer na forma mais ignóbil e covarde de terrorismo; a radicalidade da direita tem nisso o exclusivo na nossa história…

40 anos depois… Sobre a saudade e as enormes conquistas de Abril uma nova direita radical pratica agora um outro terrorismo igualmente ignóbil e covarde, de que tem também o exclusivo na nossa história, e a que alguns têm chamado “terrorismo social”…

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s