Maria Anália Rosário Gomes

Eu tinha 19 anos e frequentava o 2.º ano da Faculdade de Letras de Lisboa. Estava hospedada em casa de pessoas de família. Recordo com clareza o som do telefone que nos acordou às 7h00 da manhã, e o alvoroço lá em casa… “Houve um golpe de estado, vamos lá a ver se é desta que acaba a ditadura”… ainda assim, durante algumas horas a dúvida persistia… podia ser um golpe de sinal contrário ao desejado, tanto mais que não havia notícias… ao longo de todo o dia o que se ouvia era a Marcha do MFA e alguns apelos a que a população não saísse de casa. E eu, miúda vinda da província há apenas 1,5 ano, imbuída de espírito cordato (“não te metas em política, tens mesmo é de estudar para não perder anos…”) e não querendo colocar problemas aos meus padrinhos, fui ficando por casa e aproveitei para me preparar para a frequência marcada para o dia seguinte. Que pena tenho hoje de não ter tido a lata de desobedecer às ordens do MFA e dos meus padrinhos para me manter em casa e não ter ido para o Largo do Carmo sentir o pulsar da revolução a acontecer… Mas o receio de que algo pudesse não correr bem impunha-se à curiosidade de saber o que se estava a passar nas ruas e à vontade de participar activamente na mudança.

No dia seguinte, já ultrapassado o receio inicial de que pudesse haver violência, dirigi-me à Faculdade para fazer a tal frequência de Linguística ou de Literatura, já não me recordo bem, mas é claro que não se realizaram mais nenhumas provas de avaliação até ao fim do ano. Eram RGAs (reuniões gerais de alunos) atrás de RGAs, emergiam os líderes (p. ex. Jorge Lemos, futuro deputado do PCP), tudo se discutia: os métodos de ensino, os conteúdos, o modelo de avaliação, a organização dos cursos. Foram meses de uma certa turbulência, em que o que era verdade hoje já o não seria amanhã. Mas tudo valeu a pena, em contraponto ao cinzentismo do estertor do regime de Salazar-Caetano. Estávamos a aprender a viver em LIBERDADE.

A explosão de alegria, contudo, verdadeiramente só no 1.º de Maio eclodiria em toda a sua pujança. Aí, sim, já ninguém ficou em casa. Foi a maior emoção alguma vez vivida em termos de vivências políticas.

Recordo outra: a oferta de um dia de trabalho a favor da comunidade (5 de Outubro, nesse ano calhou a um sábado), por proposta do 1.º Ministro Vasco Gonçalves (lembro o seu entusiasmo e carisma galvanizador), para comemorar a “vitória sobre a reacção” aquando da “maioria silenciosa”, iniciativa política de alguns sectores conservadores da sociedade portuguesa, civil e militar, que decidiram organizar uma manifestação, em 28 de Setembro de 1974, de apoio ao então Presidente da República, General Spínola. Mas a sua iniciativa não foi bem sucedida e o Presidente pediria a demissão em 30 de Setembro. Dessa vez a reacção não passou e o Povo português comemorou dando um dia de trabalho a bem da comunidade.

Lembro-me de que na minha aldeia nos organizámos em brigadas mistas de estudantes e trabalhadores e realizámos trabalhos de limpeza nos arruamentos da aldeia. E com que alegria o fizemos!

Foi um tempo lindo, de acreditar que é possível a alegria, a solidariedade, a liberdade praticada e vivida com sentido de responsabilidade pelo colectivo.

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