Fernando Monteiro

Eram sete e tal da manhã e dormia. Na véspera, dia 24 de Abril de 1974, tinha estado no Goa com o Benite, o Virgílio Martinho e mais malta do Grupo de Teatro de Campolide, a beber umas cervejas, muitas, e a fumar uns cigarros, muitos, quando sou acordado com safanões e gritos pela D. Ester, minha mãe, com um ar aflito a dizer: Levanta-te, filho! Tens que ir prá tropa que há uma revolução!… Ó mãe, cale-se e deixe-me dormir É verdade, filho, estão a dizer na telefonia Liguei o rádio e só ouvia marchas militares de permeio, coisa rara, com músicas do Zeca do Fausto do Adriano e do Fanhais Entretanto toca o telefone, do outro lado do linha era um colega e amigo dos Serviços Cartográficos: Eh, pá, estão a transmitir na rádio que está em curso uma operação militar e que todos os militares se devem dirigir para as suas unidades, qué ca gente faz? Eh, pá, se estão a dizer isso, a gente vai! E eu que era militar mas pouco, afastei os lençóis, pus um pé fora do sofá-cama onde dormia — vivíamos numa vila operária e eu não tinha quarto , passei as mãos pelos olhos para afastar as ramelas, fui lavar a cara — não tínhamos casa de banho , vesti-me e fui prá tropa.

Cheguei à porta da tropa e estava fechada, isto já deviam de ser prái umas nove e tal da manhã, toquei à campainha e vieram abrir-me a porta: Entra rápido! E eu entrei.
Lá dentro era um alvoroço de oficiais, uns fardados, outros à civil, cirandavam que nem baratas tontas de um lado para o outro. Devo dizer-vos que os Serviços Cartográficos do Exército era assim a modos que uma estância balnear do exército, com a oficialagem quase toda afecta aos mandantes deste desgraçado país. Lembro-me particularmente que o Ferro e o Gabriel Teixeira, dois majores sempre de gravata preta — devia ser para impressionar o patrão Marcelo —, estavam borradinhos de medo e, às tantas, fecharam-se no gabinete de um deles a fazer não sei o quê, mas a combinarem aderir ao Movimento não era de certeza, deviam era estar a combinar uma estratégia de fuga, mas bem lixados estavam que eu e o resto da malta já tínhamos combinado não deixar sair ninguém, até tínhamos ido buscar as FBP, que eram três, e passeávamo-nos com elas ao ombro, todos importantes.

Entretanto chegaram as treze horas, hora de abrir a porta. O daquela da tropa veio dizer que não se abria a porta, mas alguém devia estar do lado de fora armado. Eu, claro, ofereci-me logo, queria apanhar ares. Peguei numa FBP  e postei-me do lado de fora da porta, tive que me abrigar ligeiramente num umbral porque caia uma morrinha. A rua, ao contrário do que o Movimento pedia, estava cheia de gente passante com sorrisos no rosto: tinha soado a hora da liberdade — recebi montes de beijos e abraços, a tropa ainda na véspera tão mal vista era agora herói da liberdade, as pessoas traziam cravos vermelhos e também eu tive direito a um. Eu estava feliz, o povo estava feliz. Soube que no Carmo o Salgueiro Maia tinha cercado o Marcelo e mais alguns da corja dominante, mas que a malfadada pide na António Maria Cardoso, mesmo nesse dia de felicidade, havia morto duas pessoas que, soltas as gargantas das amarras da opressão, gritavam vivas à liberdade, abaixo a ditadura. A hora da liberdade não ia soar, já tinha soado, era um facto que íamos ser povo, que íamos ser livres, acabava-se de vez com a guerra colonial, a pide, a legião, a censura e todas essas merdas em que se alicerçava o regime caduco de velho e de velhos.

“O povo saiu à rua num dia assim” e fez a festa. Foi um dia feliz muito feliz, posso dizer que, com o 1º de Maio de 74 e o dia do nascimento do meu filho, esses foram os dias mais felizes da minha vida. Vivemos em liberdade e democracia durante alguns anos e agora um bando de coelhos cavacos marilus e portas querem tirar-nos tudo Vejo a minha Lisboa pejada de pedintes e sem-abrigos, vejo de novo crianças de pé descalço, vejo a fome e a miséria que nos assolam de novo lentamente vai sendo implantado o tempo de 24 de Abril, mas este povo, que tão letárgico está, um dia há-de acordar e corrê-los a pontapé! Não quero mais ver crianças descalças e gente de lábios cosidos, o medo teve o seu tempo negro e afastámo-lo, as trombetas soam nos meus ouvidos e dizem-me que é necessário um novo 25 de Abril, mesmo que ele calhe a 31 de Janeiro: acordai, povo, revoltem-se, portugueses, porque queremos de novo “a paz, o pão, habitação, saúde”, queremos de novo agarrar nas nossas mãos e fazer futuro, o futuro é nosso não é de meia dúzia de tipos de fato azul e gravata, nem dos patrões estrangeiros que nos dizem que devemos empobrecer… o quê mais ainda? Eles julgam que mandam, mas Portugal há-de ser uma Fénix renascida que não se deixa endrominar com tretas e falinhas mansas Quero sair para a rua e dizer que tenho um país, não um colonato Não somos cobaias do fmi ou bce! Somos um povo como muitos séculos de história: somos um povo que quer ser livre e feliz, porra!

62 anos, Desenhador

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