Vicente Corvo

Sou Alentejano, natural de uma aldeia do interior, Cabeça-Gorda, de que muito me orgulho. Após o meu regresso da guerra colonial de Angola 1961/1964, fixei-me em Sintra, na Portela de Sintra, que fica perto da estação de comboios.

No dia 25 de Abril, eu tinha 36 anos, casado, dois filhos, um rapaz de 5 anos e uma rapariga de 2 anos. Trabalhava em Lisboa na firma James Rawes & Cª., Ldª., empresa de Navegação, Seguros e  Turismo, na Rua Bernardino Costa, 47, e com entrada para os serviços administrativos também, pela Travessa do Corpo Santo, nº.9.

Ora bem, convém abrir aqui um parênteses e dizer que eu não ouvia as notícias de manhã. Como trabalhava e estudava à noite, deitava-me tarde e, de manhã, era sempre a correr que apanhava o comboio. Portanto, eu não tinha conhecimento do que se estava a passar. Mas minha mulher, que andava a tirar a carta de condução e tinha uma lição às 8 horas, ouviu na rádio as notícias que pediam para as pessoas ficar em casa e não ir trabalhar. Segundo ela me contou posteriormente, ainda pensou em vir a casa alertar-me, mas ao mesmo tempo resolveu não vir porque sabia que se me viesse avisar, a resposta pela certa era: agora é que eu vou mesmo, o mais depressa que puder. De facto, não se enganava.

Não sabendo de nada, fui apanhar o comboio e a carruagem habituais. Qual não foi o meu espanto quando entrei na carruagem e não vi os companheiros habituais, a não ser um amigo de S. Pedro de Sintra. Este, quando viu o revisor, perguntou se os comboios chegavam ao Rossio, ao que o dito revisor respondeu que, por enquanto, ainda chegam, mas não sabia por quanto tempo. Admirado, perguntei porquê, o que se passava, ao que esse amigo me disse: então você não sabe?! há uma revolução em Lisboa e eu vou já sair na próxima estação do Algueirão; ao que eu respondi a tal resposta que a minha mulher sabia que eu daria: agora é que eu quero mesmo ir para Lisboa… não saio aqui!

Chegado a Lisboa, por uma questão de instinto, pensei que indo pela Baixa, teria mais hipóteses de recolher alguma informação. E assim foi.

Como eu tinha estado na guerra de Angola como 2º. Sargento Miliciano Atirador de Out./1961 a Janeiro de 1964, eu movia-me à vontade no meio das fardas e das armas, sem qualquer receio.

Assim, passando pela Praça do Rossio, onde já se notava algo de diferente do habitual, entro na Rua do Ouro e aí já havia tropa ocupando essa rua toda. Eu aproximei-me e tentei colher alguma informação junto das tropas, alguns soldados, cabos e furriéis.

Já tinha saído o livro do Spínola, Portugal e o Futuro. Esse livro trouxe-nos, embora falsamente, alguma esperança de mudança, como também já tinha sido o 16 de Março das Caldas. Por outro lado, eu estudava à noite na Escola do Cacém, uma escola bastante politizada na altura, frequentava os Cursos Complementares do Comércio para poder ingressar na Faculdade de Economia, e a minha turma era uma turma de homens já adultos, muitos já com trinta e tal anos, na sua maioria de esquerda, senão todos. Era pessoal que já tinha uns certos contactos e alguma da informação que se falava em grupos restritos.

Todas estes acontecimentos, criavam em nós uma expectativa de que algo iria acontecer dentro de pouco tempo, pois era notório que o regime estava a cair de podre.

Então quando me aproximei das tropas, perguntava se eram tropas do Spínola ou das Caldas, ou se eram leais ao regime. Alguns não falavam, diziam que tinham ordens para não falar, mas um ou outro sempre me disseram que se tratava de um golpe militar contra o regime.

Àquela hora já havia muito povo nas ruas, ao longo dos passeios: não tinham obedecido às ordens do MFA para ficar em casa, tal como eu.

Passei a Rua do Ouro, Praça do Município, Rua do Arsenal — ainda não se tinha dado o confronto entre as tropas do heróico Capitão Salgueiro Maia contra as tropas leais ao regime.

Cheguei ao escritório na Travessa do Corpo Santo e já dispunha de alguma informação fidedigna. Falei com os patrões que acreditaram, mas alguns colegas ficaram na dúvida. Aqueles que nós sabíamos ser apoiantes do regime, responderam-me que não era possível, que eram boatos. Tudo bem, os patrões deram ordens para o pessoal ir para casa e, como eu tinha a chave do escritório, disseram-me: você, Corvo, feche as portas e vá-se embora também.

Quando o fiz, seria já perto das 11h, 11h30, e lembro-me que assim que fechei a porta e ponho um pé na rua, já o quarteirão estava cercado pelas tropas. Imediatamente ouviu-se uma rajada de espingarda metralhadora. Como o meu instinto de defesa de quando andei na guerra ainda estava cá, reagi de pronto, baixando-me e colando-me à parede para ser um alvo o mais reduzido possível. Pergunto ao Furriel que ali estava, por onde podia ir, e ele respondeu-me que se era para ir para a estação do Rossio, que subisse a Rua do Alecrim, o que fiz de facto.

Fui andando até ao Rossio como um autómato, o meu pensamento dividido entre a família e a a oportunidade única na vida de viver uma revolução e momentos inesquecíveis da libertação dum povo oprimido por quase meio século de ditadura fascista!

Chegado ao Rossio, já perto da porta da carruagem, vejo uma senhora de meia-idade minha conhecida, era a sogra de um dos meus irmãos que morava na Damaia. Ela estava muito nervosa e ajudei-a a subir para a carruagem. Aconselhei-a a ir já embora, ao que ela me perguntou: e, então, o Vicente não vem? Eu não respondi de imediato, o meu pensamento ainda estava dividido, mas naquele momento pensei que se me acontecer alguma coisa, a minha mulher e os meus filhos que me perdoem, mas eu não vou perder esta oportunidade e respondi à senhora: o, não vou. Fico em Lisboa e vou para a Baixa… Quero viver a Revolução!

E assim dei por mim nos passeios da Rua da Conceição, onde passam os eléctricos, perto do meio-dia.

A esta hora já havia milhares e milhares de pessoas nas ruas em desobediência às ordens do MFA. Reparei que havia soldados com as suas armas colocados estrategicamente nos varandins dos telhados dos edifícios, e as ruas estavam ocupadas por tropas afectas à Revolução. De vez em quando, havia informações dadas por algum oficial que tinha um megafone e ia fazendo um ponto da situação que se vivia na Rua do Arsenal, do confronto entre tropas do Heróico Capitão Salgueiro Maia e as ainda leais ao regime. E o povo já gritava palavras de ordem a incentivar as tropas!

Quando, finalmente, perto das 13 horas, há a informação, via megafone, de que as tropas afectas ao regime se tinham rendido e, aí, foi uma explosão total com os gritos de VITÓRIA, VITÓRIA, VIVA A LIBERDADE!

Seguidamente, o povo, aos milhares seguimos os carros de combate, aqueles monstros PANHARDS que tinham ajudado à vitória das tropas e do povo, e subimos a rua Augusta até ao Rossio.

Chegados ao Rossio, ouvi que as tropas iriam dirigir-se para ocupar as instalações de organizações para-fascistas, a Legião e a Mocidade Portuguesa, e outros iriam para Caxias para libertação dos presos políticos. Eu já não segui para aí e fiquei no Rossio a ouvir muitos discursos inflamados de rapaziada nova que me pareceu estudantil (eram activistas do MRPP). Passado algum tempo, ouvi alguém desse grupo gritar: agora, vamos para a António Maria Cardoso! Eu pensei, espera lá, isto são as instalações da PIDE! Não vou para aí, novamente a minha experiência da guerra e o meu instinto funcionou bem, e pensei, eles devem estar entrincheirados e armados, à espera que as tropas lhes vão ocupar as instalações, e eles não se vão render sem dar luta, e estes gajos vão dar o peito às balas, isto pode dar merda… e não fui.

Como já eram talvez umas 15 horas, deu-me fome e fui procurar alguma tasca aberta para comer uma sandes, dirigindo-me à Rua 1º de Dezembro. Assim que dobro a esquina, deparo-me com uma secção de GNR’s perfilados em formação de combate com as armas em riste, ainda fiéis ao regime. Imediatamente faço meia volta e dirigi-me aos Restauradores, mas nada, estava tudo fechado.

Voltei ao Rossio e lembrei-me de subir as escadinhas do Rossio. A Calçada do Carmo já estava apinhada de povo, por todo o lado, até em cima das árvores, pois era o último reduto do regime que ainda resistia. Como os GNR’s não se rendiam, então começámos a ouvir apelos por megafone para o povo abandonar o local, porque as tropas tinham que bombardear o quartel. Este aviso foi feito várias vezes sem resultado, ninguém arredava pé, até que se ouviu uma ordem para abandonarmos imediatamente o local, porque as tropas iam de imediato atacar o quartel. Aí o povo acreditou e tocou em debandada desordenada por todos os lados, um deles foi a estação do Rossio, com os comboios da linha de Sintra a arrancarem de imediato! Ainda ouvi as tropas a dispararem alguns tiros contra o quartel: e foi quando o Capitão Salgueiro Maia entrou para as negociações com o Marcelo Caetano para queda do governo, do regime que acabava de cair, e a consequente passagem do poder para o MFA.

Voltei para casa nesses comboios, seriam mais ou menos 18 horas. Pus-me a ouvir as notícias da rádio e a ver a televisão e foi quando ouvi a notícia das mortes de 3 ou 4 jovens na António Maria Cardoso. Afinal, eu tinha razão e lamentei a morte tão estúpida desses jovens.

Os dias seguintes foi uma vida frenética, mal trabalhávamos, a hora de almoço era vivida a acompanhar os acontecimentos da Revolução, na zona da Baixa e do Cais do Sodré. Num desses dias, à hora do almoço assisti ao assalto às instalações da Censura que ficava perto da Misericórdia. Eram móveis, eram pastas, toda a papelada deitada para a rua através das janelas do 1º. Andar. Eu ainda agarrei um pedaço de um Jornal com uma notícia censurada sobre a falta de gasóleo em Porto Amélia, Moçambique.

Nas escolas vivia-se um processo revolucionário e de ajuste de contas com quem tinha sido colaboracionista com a PIDE. Na escola que eu frequentava, no Cacém, havia dias a fio Assembleias de professores e RGA’s. Houve processos de saneamento, alguns justos, mas também alguns injustos. Nas aulas, uma grande parte do tempo, em qualquer disciplina, nós, os alunos impúnhamos que, antes de dar qualquer matéria, tínhamos que discutir na aula os acontecimentos desse dia e não cedíamos: os professores tinham que alinhar neste tipo de discussão, exigíamos a sua participação e a sua opinião — excessos do PREC, talvez, mas mesmo assim considero que o povo português se portou muito calmamente.

Estive em muitas Manif’s, quer do Partido Comunista, quer da UDP. Nunca estive ligado a qualquer partido, mas sempre fui e sou um homem  de convicções de esquerda. Penso que já nasci assim, são genes que passaram dos meus antepassados, o meu avô paterno e o meu pai, naturais de Beja, durante a 1ª República pertenciam ao partido Republicano.

Aos 16/17 anos vivi em Beja os acontecimentos do funeral de Catarina Eufémia, que me marcou muito nessa época.

Tive o prazer de estar na 1ª. Grande manifestação do povo em LIBERDADE, o primeiro 1º de Maio  de 1974, que terminou no estádio da FNAT. Nessa manifestação, foi uma verdadeira explosão de alegria e de comunhão entre o povo, por termos conseguido quebrar as amarras de quase meio século de fascismo. Recordo o discurso de Mário Soares e de Álvaro Cunhal, o abraço entre ambos e o discurso de dirigentes sindicalistas da época.

Recordo com saudade a alegria que transparecia nos rostos deste povo anónimo! Lembro-me que nos comboios, as carruagens apinhadas, o pessoal, mesmo sem se conhecer, falava dos seus problemas nos locais de trabalho e todos nós discutíamos, no bom sentido do termo, esses problemas: ouviam-se conselhos, emitiam-se opiniões, todo o mundo falava sem medo de dar a sua opinião, de expor as suas ideias.

Era o nosso renascimento como Povo que sentia que tinha conquistado a sua dignidade como seres humanos livres, de poder falar sem medo, de expor os seus ideais, do tipo de sociedade que queríamos, uma sociedade Justa, Fraterna, Solidária, com direitos e deveres iguais para todos perante a Lei.

Queríamos acabar com a guerra injusta nas colónias, queríamos Paz, Pão, Habitação, Educação, Saúde, enfim, melhores condições de vida para todo o Povo, mas que, infelizmente, passados 40 anos, está tudo a ser roubado por estes fulanos, os filhos daqueles que nunca aceitaram a audácia que os Capitães de Abril e o Povo tiveram em fazer o 25 de Abril de 1974.

Viva o 25 de Abril, sempre! Fascismo nunca mais!

Citando o saudoso poeta Zé Carlos Ary dos Santos: “Agora, ninguém mais cerra as portas que Abril abriu!”

Vicente José Cançado Corvo, 76 anos, Técnico Oficial de Contas

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