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Chico da Emilinha

O que viste no 25 de Abril?

Nada, nada de nada do que aqui se passava.

No dia seguinte, pelos céus de Cabinda, passavam vários quando passa, já passou — nome dado pelos pretos aos aviões FIAT, uma vez que quando se ouvia o ruído, já o bicho ia muito lá prá frente.

Isso para a malta foi estranho, devido ao elevado e desusado número de FIAT’s e às suas várias passagens durante todo o dia. Para nós, significava que havia merda no mato, levando-nos a pensar nos desgraçados que por lá estavam, mas mais estranho ia ficando, uma vez que não éramos chamados ao hospital onde os héli’s depositavam os soldados que eram evacuados. A PM fazia uma espécie de guarda entre o sítio onde pousavam os passarocos e o corredor da sala de operações  uma salita com 10 m2, uma mesa de chapa com dois braços perto da cabeceira, onde eram amarrados os que podiam ser operados, corte de pernas e outras coisas assim; a porta da sala era de vai-e-vem, tipo faroeste, e no chão do corredor ficavam os desgraçados, rasgados, ensanguentados, ou não dando acordo de si; os médicos de serviço encarregavam-se de verificar se era possível serem ali tratados ou se tinham de ser evacuados para Luanda; não raro, um ou outro médico, lá dava ordem de evacuação para a cidade grande, mas diziam-nos: este não chega lá… Por ordem de um médico, tive a infeliz oportunidade de ter de segurar, com tanta força que ia virando a “mesa de operações”, num preto a quem cortaram a perna abaixo do joelho; estava a acabar a anestesia e uma preta varria a salita, mas o médico (Câmara Pires) não saiu da beira do homem enquanto ele não lhe respondeu a determinadas questões. No dia seguinte, a convite do médico, visitei o gajo, dei-lhe uns cigarros… só lhe doía o dedo grande do pé que já não tinha.

Como PM, fazia alguns serviços no Comando de Sector, frequentado por gente da mais graúda. Começou o diz-que-diz, mas demorou alguns dias a saber-se mais ou menos o que havia acontecido. Os furrieis iam-se abrindo com a malta, os aerogramas não chegavam… demorou algum tempo a perceber.

Não muito tempo depois, o MPLA entrou em Cabinda com as nossas tropas. Do lado dos Honimogues, o que ficava virado para o Comando de Sector, vinham as nossas tropas; do outro, vinham os homens do MPLA. Só demos por ela quando acabou de passar a coluna… Os MPLA’s estavam de joelho no chão e com as armas apontadas ao edifício.

Alguns Furrieis e Oficiais das nossas tropas que vinham na coluna, tinham saltado mais à frente e chegaram-se a nós. Foram eles que entraram no Comando de Sector e deram voz de prisão a todos os Oficiais que viriam a ser enviados para a cidade grande, Luanda. Havia um Major da PSICO (que não lembro o nome, nem quero), mas que tinha a mania de dizer quando lhe apresentavam algum caso: Tem problemas ? APONTE! E assisti a um Furriel dar-lhe voz de prisão; o homem fez peito e levou um estalo de mão aberta; espalhou-se pela escadaria onde eu estava, e ficou meio parvo; foi a minha oportunidade: Tem problemas, meu Major? APONTE!!

As notícias que chegavam por aerograma tornavam a coisa para nós mais confusa e incompreensível, dada a situação em que nos encontrávamos: obedecer a ordens? mandar foder aquilo? aturar os desmandos dos pretos e dos brancos…

Mais tarde, no Chiluango (cinema ao ar livre), passaram vários cantores… aprende a nadar, companheiro…… maré alta, maré alta

Com as notícias que chegavam por aerograma, a coisa era para nós confusa, a alegria era grande, mas o que queríamos era vir embora

Foram momentos complicados assistir (de serviço), pela passagem de Lúcio Lara e, depois, Agostinho Neto, por Cabinda. Mas aí começámos todos a acreditar em Liberdade, mas com uma raiva muito grande: os pretos mandavam-nos para a nossa terra, raspando as catanas no chão.

Em rondas mistas com elementos dos Movimentos de Libertação, ao ter mandado foder uns pretos que queriam colar cartazes no Comando de Sector e só falavam francês — eu não dormia já nessa altura —, mandei um pontapé no balde da cola e ordenei que desandassem dali; a G3 teve mais força, mas foi uma merda com outros pretos que falavam a minha língua; vá que apareceu o mibindi (amigo, em fiote), que vim a saber que era MPLA, e convenceu os outros que eu era o gajo que lhe dizia muitas vezes: ainda hei-de ver a vossa terra livre!

Regressámos a Luanda depois de termos deposto as armas em Cabinda. Queríamos desandar dali. Na cidade grande foram atrocidades sobre atrocidades, uma merda das piores.

Regressei em 15 de Março de 1975. Só aí vi o que tinha sido e era o 25 de Abril e o 1º de Maio.

O meu não foi nada bom por aquelas terras… Foi mesmo doloroso, com uma mistura de alegria Complicado. Mas cá estou a pugnar por ele, sempre! 

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