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Luís Pimentel

À data, tinha 30 anos, capitão.

No dia 25 de Abril, comandei a força do Campo de Tiro da Serra da Carregueira (CTSC) que, no plano de operações do Movimento das Forças Armadas (MFA), teve por missão ocupar a Emissora Nacional (EN), na Rua do Quelhas, em Lisboa. Essa missão foi cumprida pelas 03h15, ou seja, cerca de 15 minutos depois da “hora H” (que é como se designam as horas determinadas, nos planos de operações militares, para início de concretização das missões atribuídas).

Foi por essa hora que telefonei para o posto de comando do MFA, instalado na Pontinha, e no qual fui atendido (salvo erro) pelo próprio Otelo. Informei-o, dizendo: «Estamos em Tóquio», que era o código estabelecido para os estúdios da EN. «OK. Parabéns e um abraço», respondeu ele.

Tive como 2º comandante da força o (então) capitão Frederico Reis Morais, do meu Curso da Academia Militar, o qual desempenhou uma acção empenhadíssima e muito eficiente. Antes disso, havíamos também já participado juntos nas várias reuniões de oficiais que deram origem e corpo ao MFA.

À acção do CTSC aderiram 5 dos oficiais milicianos que aí estavam colocados e que atempadamente havíamos contactado, os quais, consciente e decididamente, se integraram na preparação e na execução da missão que nos fora atribuída, demonstrando consciência quanto à sua importância, prontidão para os sacrifícios que lhes fossem exigidos e capacidade de comando e de entrega.[1]

Quanto aos praças (isto é, os cabos e soldados), o pequeno grupo de 40 militares, que na madrugada do dia 25 de Abril fomos acordar e organizámos, eram uma amálgama de especialidades e funções e não o todo homogéneo de uma unidade “normal” de atiradores. Isso devido à especificidade do CTSC que era, fundamentalmente, um vasto terreno utilizável pelas outras Unidades para a execução de treino tático e de tiro, tendo apenas em instrução formativa uma pequena sub-unidade. Contudo, deve ser realçado que todos aqueles 40 praças se empenharam com verdadeiro espírito de combate, revelando um magnífico comportamento em disciplina, espírito de sacrifício, dignidade e entreajuda.

Vou aqui destacar apenas um aspecto específico e diferente da nossa acção de comando antes de partirmos para a EN. Ao contrário do que fez o Capitão Salgueiro Maia (que, antes de sair de Santarém, informou as suas tropas do que iam fazer e apelou para irem a Lisboa impor «o fim do Estado a que isto chegou…» e, felizmente, não teve problemas com isso), eu e o Reis Morais não revelámos aos nossos soldados qual a finalidade real da missão que iríamos cumprir. Apenas o havíamos feito, obviamente, aos oficiais milicianos que previamente contactáramos e se prontificaram a participar nessa missão. Aos soldados, demos a perceber que iríamos cumprir uma missão normal e ao serviço do regime vigente. Porquê? Muito simples: primeiro, porque queríamos afastar o risco de, divulgada a missão, surgirem logo divergências e não-concordâncias que pusessem em causa o respectivo cumprimento. Se tal acontecesse, seria um descalabro. O que fazer nessa situação? Avançar, ainda mais debilitados, só com os aderentes?… E deixar “para trás” os não aderentes, pondo em risco evidente tanto a nossa acção como a de todo o MFA?… Não era, técnico-militarmente, uma solução fiável.

Segundo, e igualmente importante: porque queríamos que, se algo corresse mal e fôssemos derrotados e/ou detidos, apenas eu e o Reis Morais fôssemos responsabilizáveis. Queríamos que os nossos soldados ficassem ilibados e protegidos de retaliações (assim como, também, os oficiais milicianos, porque poderiam usar as mesmas desculpas e argumentos). Isto, porque todos poderiam, credivelmente, dar-se por convictos de que estavam numa operação em favor do poder vigente e ao serviço dele, assim se defendendo junto das autoridades e da PIDE, vincando saber apenas que estavam numa missão normal e acreditar nisso. E, para os apoiar, como era nosso propósito, nós, capitães, confirmaríamos sempre a versão deles, até com recurso a uma ordem de operações falsa, atribuída ao Governo Militar de Lisboa, que eu tinha previamente forjado para o efeito.

Portanto, foi só quando já estávamos na EN e com esta completa e seguramente ocupada, que revelámos aos soldados e lhes explicámos a verdadeira e concreta missão que acabavam de cumprir. No final, dissemos-lhes: «Quem não concordar, pode, deixando aqui o armamento, ir-se embora e regressar ao quartel!…».

Ninguém aceitou: todos aderiram e com total seriedade e genuína entrega!

Ocupar a EN foi um objectivo importante para o MFA porque essa estação de rádio era, de entre as então existentes, a mais poderosa do «Estado Novo», isto é, do regime político instalado. Impedi-la de actuar em favor desse regime e colocá-la ao serviço do MFA e da revolução foi, realmente, muitíssimo importante. E isso foi feito também, obviamente, com a voluntária e decidida colaboração posterior de alguns técnicos e locutores da Emissora que, para tal, de pronto se disponibilizaram.

Será de relembrar aqui um aspecto peculiar e bizarro da ocupação das instalações. Quando, vindos da Carregueira, estacionámos as viaturas na Rua do Quelhas em frente ao, então, ISE (Instituto Superior de Economia, hoje ISEG), que ficava ligado à EN (e que, actualmente, a integra como sua instalação universitária), deparei com dois polícias, de capacete e armados de pistola-metralhadora, estacionados em frente da porta. Fiquei naturalmente apreensivo, pensando: «Queres ver que o MFA foi detectado e os objectivos já foram ocupados pelas forças do regime?!…». Se essa fosse a situação real, a nossa necessidade de conquistar a EN por via do combate seria terrivelmente sacrificadora ou mesmo inalcançável, face à dificuldade técnico-táctica de atacar o edifício e de debilitar a força aí instalada. Bem, dirigi-me aos dois polícias e disse-lhes: «Tenho aqui uma Ordem de Operações do Governo Militar de Lisboa para ocupar a Emissora Nacional.» E, naturalmente, mostrei-lhes o documento desse cariz que, como referi acima, eu próprio tinha forjado, precisamente, para enganar os oponentes e para dar sustentabilidade à tese dos meus acompanhantes de que julgavam estar a cumprir ordens do poder instalado e não a participar na revolução do MFA. Fiquei completamente feliz e descansado, quando um dos agentes policiais, calma e amigavelmente, me respondeu: «É já essa porta aí abaixo, à esquerda.»

E, realmente, foi só tocar à campainha e entrar.

Para terminar, será de dizer que a parte mais gratificante da nossa acção ocupante da EN nos veio do comovente e carinhoso apoio que a população civil nos manifestou por diversas formas (distribuição de comida, entrega de cravos vermelhos, aplausos, etc.). E sem o menor gesto de hostilidade, bem pelo contrário. Essa foi, inequivocamente, uma excelente “medalha” com que nos “condecoraram”.

Coronel de Infantaria, actualmente reformado

[1] O TEN Milº Silva Pinheiro e os ASP Milº Lopes Simões, Alves Moreira, Santos Trindade e Cruz Serrinha.

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