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Nuno Guilherme Catarino Anselmo

O Regimento de Artilharia Pesada N.º2 (RAP2), actualmente Regimento de Artilharia N.º 5 (RA5), participou activamente e com um volume de Forças consideráveis nas Operações do 25 de Abril de 1974, contribuindo de forma significativa para o sucesso de toda a Operação.

Tomei parte, como Capitão, na preparação da participação do RAP2 no 25 de Abril de 1974, juntamente com outros militares, o Major de Artilharia Engrácia Antunes e os Capitães do QP apresentados na Unidade, dos quais se mencionam: Luís Gonzaga Freire Antunes; Eduardo da Conceição Santos e João António Heitor Alves, com a presença em várias reuniões no Porto e em Lisboa e, finalmente, na de Cascais, em 5 de Março de 1974. No RAP2, era comandante o Coronel Fernando Dias Branco, as reuniões decorriam com alguma periodicidade nos quartos dos Capitães.

Na manhã de 24 de Abril, saí do RAP2 para ir ter com o Major Corvacho do QG/RMNorte, no sentido de me ser entregue documentação que interessava à Unidade para a sua colaboração nas missões que lhes tinham sido atribuídas.

Transmitida aos Oficiais do QP, comandantes das sub-unidades, a indicação recebida de que seria nessa noite o desenrolar das operações, cada um realizou as tarefas que lhes competia para o efeito.

Como comandante da CCS, eu e o Oficial de transmissões da unidade, a titulo de experimentar os meios rádio existentes e o respectivo pessoal, realizámos um exercício de transmissões com os rádios que nessa noite foram distribuídos ao pessoal que iria sair da Unidade.

Após o jantar foi ainda efectuada uma breve reunião, no Porto, nas imediações da Câmara Municipal, em que participaram os Capitães que pernoitavam no quartel e o Major Engrácia Antunes que residia fora do quartel, para ultimar os pormenores.

Pelas 22H00 de 24 de Abril, os Capitães do RAP2 reuniram-se no meu quarto para ouvirem, pela rádio Alfabeta dos Emissores Associados de Lisboa, a primeira senha — “E depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, que deu inicio às operações. Seguiram depois para as instalações do piquete (na altura eram num parque de viaturas junto à sala de Oficiais e em frente à Igreja da Serra do Pilar), onde subtraíram as armas com que actuaram.

Depois de recolhidas as armas do piquete, o Oficial de Dia, Capitão Eduardo da Conceição Santos bateu à porta do quarto do Comandante, que dormia na Unidade, e disse: “ tenho mensagem de grau secreto e imediato”, o que permitiu que viesse à porta e fosse confrontado com a ordem de detenção dada pelo Capitão de Artilharia Freire Antunes, escolhido pelos Oficiais pela frontalidade e determinação. O Comandante não querendo acreditar no que ouvira afirmou “…você está a brincar comigo”, ao que o Cap. Antunes lhe respondeu: “nem pouco mais ou menos e avisamos que não vale a pena tentar ligar qualquer dos telefones que tem no quarto, militar ou civil, pois nós já os desligámos porque cortámos os fios . Não faça nada, que nada de mal lhe será feito”.

Pelas 00H20, o programa “Limite” da Rádio Renascença transmitia a canção “Grândola Vila Morena”, de Zeca Afonso, sinal confirmativo de que as operações militares planeadas pelo MFA estavam em marcha, para que os militares dessem início às operações previstas. Foi de novo no meu quarto que os Oficiais do RAP2 ouviram esta senha, que confirmava que tudo se encontrava a decorrer como previsto.

A partir desta altura, foram alertados os Oficias e Sargentos das diversas Baterias que iriam participar nas operações, tendo-lhes sido dada a conhecer a situação e deixando ao seu próprio critério a sua participação. Entre eles, o Oficial de Transmissões da unidade que, horas antes, estivera a participar no exercício de transmissões, compreendendo finalmente o motivo do referido exercício, que tinha sido o único até então realizado na unidade.

Não houve recusa por parte de qualquer graduado, tendo todos participado.

Às 4h45, uma força de uma Companhia de Artilharia (CART 6252) que se encontrava no RAP2, mobilizada para o Ultramar, comandada pelo Capitão de Artilharia Heitor Alves, como constava no planeamento, efectuado previamente, ocupou o Centro Emissor de Miramar (Porto) do RCP.

Uns dias antes do 25 de Abril, estive no local a fazer o reconhecimento da Estação Emissora e a gizar o modo de actuar, com o Major Corvacho e o Capitão Heitor Alves, que foi quem ocupou a Emissora.

Às 06H50, sob as ordens do MFA, uma bateria de obuses do RAP2, sob o comando do Capitão Freire Antunes (falecido em Agosto de 1985), toma posição nas entradas da Ponte da Arrábida, no Porto.

Pelas 07h30 foi ocupada a Ponte D. Luís por forças de uma unidade que se encontrava apresentada no RAP2 com destino ao Ultramar, tendo, posteriormente, parte dessa força sido deslocada para os Estúdios da RTP (Monte da Virgem), em Vila Nova de Gaia, para proceder à sua ocupação, dado a unidade a quem competia tais missões não as ter cumprido como planeado.

Ao fim da tarde, após autorização do Comandante, saí da Unidade com uma força constituída por Oficiais, Sargentos, Cabos Milicianos e Praças, num total de 29 homens, para contacto e controlo da população, se necessário, e verificar a situação na ponte D. Luís. Como a situação, naquele local, se mantinha sem qualquer tipo de problemas, deslocámo-nos de seguida para a Avenida dos Aliados na cidade do Porto (ao princípio da noite), após passagem pelo QG/RMNorte, a qual se encontrava completamente cheia de pessoas, tendo começado a surgir rumores sobre a intenção da população se deslocar, com alguma animosidade, para as instalações da antiga PIDE/DGS no Porto (Rua do Heroísmo/ Largo Soares dos Reis), hoje Museu Militar do Porto. Face a esta situação e por ter alertado superiormente o QG/RMNorte, recebi indicações no sentido de me deslocar para as referidas instalações, para garantir a segurança.

Pelo caminho fui alertado pela população que estava na rua, que elementos da PSP, que se encontravam numas instalações próximas, tinham disparado e que havia polícias na rua. Como sabia que a PSP tinha prometido que, ainda que não aderisse ao Movimento, também não actuaria contra e que se manteria dentro das suas instalações, não saindo para a rua, pedi que dissessem a um elemento da PSP para vir falar comigo. Efectivamente, veio falar comigo um guarda a quem perguntei por que razão estava na rua, tendo ele informado que receberam ordens do seu Comandante, Coronel Santos Júnior. Disse-lhe se poderia pedir ao Sr. Coronel para vir falar comigo, facto que se verificou. Perguntei então ao sr. Coronel Santos Junior qual a razão, dado que a PSP nos garantira que não apoiando também não estavam contra e que tinham prometido não saírem para a rua, para ainda permanecerem elementos da PSP na rua e por que razão tinham disparado contra a população. A resposta que recebi foi amigavelmente a seguinte pergunta “o que é que o sr. Capitão quer que eu faça? Diga o que quer, que eu faço”. Respondi-lhe simplesmente: “façam aquilo que prometeram, que é não intervir e saírem da rua, permanecendo dentro das vossas instalações” E assim o fizeram e nada mais se passou, que eu soubesse, naquela zona entre a Praça dos Aliados e a sede da DGS no Porto, passando por umas instalações da PSP que não posso precisar neste momento o seu local, mas que ficavam no caminho

Lá ficámos toda a noite de 25 para 26 de Abril, nada tendo acontecido de especial, para além de uma tentativa frustrada da fuga de um agente da PIDE/DGS, que acabou por ter de ser encaminhado para o hospital.

À medida que a noite ia decorrendo a população, aos milhares, que se encontrava no local e que inicialmente ocupava praticamente todos os passeios existentes no largo onde se localizavam as instalações da PIDE/DGS, à excepção do passeio anexo às mesmas, foi-se desmobilizando, restando ao início da manhã de 26 de Abril ainda algumas pessoas, tendo um senhor afirmado que só sairiam dali quando as instalações fossem reocupadas pelos militares com essa missão. Queriam assistir ao “desmantelar” da organização que tanto detestavam.

Fomos rendidos cerca das 10H00 de 26 de Abril por Forças do QG/RMNorte.

Na tarde de 26 de Abril, militares da Bateria do Capitão Antunes, que ocupara a Ponte da Arrábida na madrugada de 25 Abril, e da CART 6252 do Capitão Heitor Alves, que ocupara o Centro Emissor de Miramar (Porto) do RCP, participaram ainda na manutenção da segurança às instalações da PIDE/DGS, evitando que a população entrasse nas mesmas, com a promessa pessoal do Tenente Coronel Carlos Manuel Azeredo Pinto Melo e Leme do QG/RM Porto de que os elementos da PIDE/DGS iriam ser devidamente julgados.

Para além da participação empenhada dos Oficiais do RAP2 na preparação e condução das operações do 25 de Abril, é de salientar a prestimosa e generosa colaboração dos Sargentos e a participação empenhada das Praças da Unidade, na execução das operações do RAP2, no 25 de Abril de 1974.

Nuno Guilherme Catarino AnselmoCoronel de Artilharia Reformado.

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