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Pedro Concha Nunes de Azevedo Peres

Do dia 25 de Abril de 1974, uma quinta-feira, recordo-me do nascer do dia nublado, de ir para o trabalho e, ao iniciar a descida da álea superior do Parque Eduardo VII, vindo de Campo de Ourique em direcção a S. Sebastião da Pedreira (curiosamente este troço de via pública passou a ser designado por Alameda Cardeal Cerejeira, por edital da CM de Lisboa, datado de 14 de Abril de 1982, então presidida pelo Eng.º Kruz Abecassis, do CDS, em representação da coligação PSD-CDS), de me deparar, subitamente, com uma autometralhadora estacionada no cruzamento com a Avenida António Augusto de Aguiar.

Travo o carro, uma Dyane branca, decidido a dar meia-volta para escapar a possíveis complicações e regressar a casa. Naquele tempo éramos quase todos suspeitos de sermos perigosos subversivos até prova em contrário. E até que aquela prova se produzisse, era uso “porrada de criar bicho”.

Regressado a penates, abri o rádio, a televisão, escutando os comunicados do Posto de Comando do MFA, enquanto ia ligando para este e para aquele a ver se entendia o que se passava.

Como estava fundeada uma esquadra da NATO no Tejo com saída prevista para essa manhã, resolvi ir com um amigo meu até Belém para confirmar a sua saída. Lá os vimos a desfilar e voltámos para almoçar em casa dele e continuar a tentar perceber o que de facto se estava a passar. Mas a memória do Chile assombrava-me, com os seus milhares de mortos e de desaparecidos e de dezenas de milhares de encarcerados. O 11 de Setembro de 1973 da besta sanguinária de Pinochet tivera o beneplácito explícito dos EUA e implícito da maioria das “democracias ocidentais” representadas na NATO.

Assim a saída da esquadra, cumprindo o calendário, nada queria dizer: o que aconteceu no Chile poderia facilmente repetir-se em Portugal. Por outro lado, a proximidade do regime de Franco, outro bárbaro sanguinário, que continuava a torturar e a assassinar pelo garrote ou pelo fuzilamento, também era motivo para preocupação.

Acresce que o meu conhecimento dos quadros das nossas Forças Armadas, adquirido durante 4 anos de SMO, dois em Portugal Continental e outros dois em Angola, não era de molde a dar-lhes grandes créditos. A agravar a minha leitura da situação, entre eles pontuavam figuras que sempre estiveram coniventes com o regime autoritário e repressivo de Salazar e Marcelo.

A primeira página do República entreabria a porta à esperança, mas a dúvida subsistia: Golpe militar para derrubar o “tíbio” Marcelo, ou era algo de diferente, que abrisse caminho à instauração das liberdades, direitos e garantias de um Estado democrático de direito?

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À tarde passei pelo Largo do Carmo. Já estava pejado de gente. As pessoas irmanavam-se, entoando palavras de ordem, e fundiam-se com o aço dos carros de combate. Era como se os quisessem proteger com a sua própria carne, como se o aço lhes fortalecesse a determinação.

É tempo de honrar este Povo anónimo que saiu à rua, cidadãos e militares — praças, cabos, furriéis e sargentos — e que, por tantos terem sido, tão pouco são recordados.

Parafraseando Bertolt Brecht, nas “Perguntas de um operário que lê”: Os capitães  de Abril conquistaram a Liberdade, sozinhos?

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No Largo do Carmo o tempo passava. Marcelo e seus acólitos cercados pelos populares e pelos militares revoltosos tardavam em render-se.

Impaciente com o desenlace que tardava, resolvi descer, já de carro, pelo Camões em direcção ao Chiado.

Estou no Camões, passava das quatro da tarde, e ouço tiros. De repente desponta numa esquina meia dúzia de pessoas a fugirem transportando uma rapariga ferida.

Metemo-la no meu carro e lá a transportei, no banco de trás, sozinho, em corrida desabrida até às Urgências do Hospital de S. José. Desembarquei a minha passageira e eis que logo chega um polícia que me disse para esperar, que tinha de ficar com a minha identificação.

Enquanto volta costas e torna a entrar nas Urgências, meto-me no carro que estava ligado e desapareço.

Nunca soube quem ajudei naquele dia, mas estou certo que sobreviveu apesar do sangue que perdeu.

68 anos, Gestor, reformado