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Rodrigo da Nóbrega Pinto Pizarro

Na altura, já lá vão 40 anos, fui transferido disciplinarmente do CIOE (Lamego) para o RI10 (Companhia Operacional do Regimento Infantaria 10, Aveiro), bem como a quase totalidade dos capitães daquela Unidade o foram para outras espalhadas pelo País, em virtude de uma insubordinação em 15 de Março de 74, na sequência das demissões dos Generais Costa Gomes e Spínola.

Na madrugada de 23 para 24 de Abril, recebi das mãos do então capitão Sousa e Castro a Ordem de Operações do MFA para as acções a cumprir pela Companhia Operacional do RI10.

Contactados os oficiais milicianos aderentes ao Movimento e alertado o comandante da Companhia (Alf. Cunha) que se encontrava em exercícios no campo em Aguada, arredores de Aveiro, reuni com outros capitães em casa do capitão Cal, oficial a prestar serviço em Águeda, aguardando as senhas para preparação e início das operações. Após a audição da canção Grândola, pelas 00h20, conjuntamente com o capitão Lucena Coutinho e em viatura particular, marchei ao encontro da Companhia para assumir o seu comando.

Depois de formar o pessoal, foram distribuídas as 2000 munições reais (dotação de segurança para sub-unidades em exercícios) e iniciou-se, por volta das 01h00, o movimento para a Figueira da Foz onde, segundo a ordem de operações, teríamos que estar até às 03h00 para nos reunirmos com as restantes unidades que constituíam o Agrupamento November e que eram companhias do RI14 (Viseu), RAP3 e CICA2 (Figueira da Foz).

Chegamos àquela cidade pelas 02h40 e encontrámos os portões do RAP3 fechados, com pouca ou quase nenhuma movimentação no seu interior.

Face a tal situação, deslocamo-nos ao CICA2 onde o capitão Sousa Ferreira (outro dos oficiais transferidos do CIOE em 15 de Março) nos informou estar a ser preparada a companhia daquela unidade sob o comando do capitão Rocha Santos, e que o capitão Diniz de Almeida estaria a deter o comandante do RAP3.

Dado que a concentração era nesta Unidade, aí entrámos por volta das 03h15, tendo assistido à grande azáfama na preparação dos militares, na grande maioria recrutas ainda em instrução.

Aproveitei esse momento para formar a companhia e comunicar aos militares a missão que nos tinha sido atribuída, das suas razões. Obtive de todos eles adesão incondicional.

Como tinha poucas munições e não se encontrava a chave do Paiol, uma das minhas viaturas arrombou a porta do mesmo, o que permitiu municiar as minhas forças e as do RAP3, incluindo as necessárias para as 6 peças de artilharia desta unidade.

Não havendo qualquer contacto com os militares do RI14, aguardámos até às 05h00 pela sua chegada e, como ela não se verificasse, foi decidido avançar sob o comando interino do capitão Lucena Coutinho, uma vez que o comandante do Agrupamento — capitão Gertrudes da Silva  vinha juntamente com as forças do RI14.

Contornámos Leiria, sede do RI7, Unidade não afecta ao Movimento, e parámos junto ao RI5 (Caldas da Rainha) onde dialogámos com oficiais que tinham substituído os que foram detidos no golpe falhado de 16 de Março, os quais nos garantiram a sua neutralidade.

Para dar cumprimento ao principal objectivo — ocupação do Forte-Prisão de Peniche —, a coluna marchou para aquela localidade, tendo a minha sub-unidade sido detida quando faltavam cerca de 9 Km porque uma viatura do CICA2 teve uma avaria mecânica, ocupando a faixa de rodagem e obrigando à sua remoção.

Chegados a Peniche ao início da manhã, deslocámo-nos de imediato para o Forte na convicção de que o mesmo já teria sido tomado pelas forças do RAP3 e CICA2, mas constatámos com surpresa que elas aí não se encontravam. Apercebi-me de que elementos armados da GNR continuavam a garantir a segurança, decorrendo ainda na praça fronteira ao Forte uma Feira.

Coloquei as minhas forças em posição de combate em todos os arruamentos que permitiam o acesso à praça, dando instruções ao meu adjunto (Alf. Cunha) e ao Aspirante do RAP3, responsável pelas 4 bocas de fogo de artilharia que o capitão Dinis de Almeida colocou sob o meu comando — eram 6, mas 2 ficaram pelo caminho entre Leiria e Caldas da Rainha, em virtude de um acidente que envolveu as viaturas que as rebocavam.

Face ao aparato militar, alguns feirantes vieram ao nosso encontro perguntando se podiam ali continuar e se correriam riscos, tendo-lhes eu dito para evacuarem a praça em 3 a 5 minutos.

Para inveja de muitas forças militares, revelaram extraordinário profissionalismo e rapidez na desmontagem das bancas e tendas, evacuando a praça em breves minutos, de tal forma que, não fora o abandono de alguns plásticos e caixas vazias, ninguém diria estar ali a decorrer uma feira.

Montado o dispositivo de cerco com indicação de que as bocas de fogo fossem apontadas ao Forte em tiro directo, dirigi-me ao portão principal onde já se encontrava o seu responsável. Este, manifestando “surpresa e espanto“, perguntou pelos motivos do posicionamento da força militar, e eu respondi-lhe que estava a cumprir uma missão do MFA, que desde as primeiras horas da manhâ tinha desencadeado uma operação militar para derrube do Regime, e exigi-lhe a rendição e entrega incondicional do Forte.

Alegando não ter recebido qualquer ordem superior nesse sentido e não ter nenhum contacto com Lisboa, pediu algum tempo mais para entregar o Forte, o que lhe concedi, dado termos instruções para evitar, a todo o custo, qualquer derramamento de sangue.

Entretanto, chegou a Peniche a Companhia do RI14, tendo o comandante do Agrupamento convocado todos os capitães para uma reunião. Nesta expus o ponto de situação junto ao Forte e obtive, da sua parte, concordância com a minha decisão.

Nessa reunião foi atribuída, a seu pedido, ao CICA2 a ocupação do Forte, uma vez que os seus militares eram recrutas com pouca ou quase nenhuma experiência e teriam dificuldades acrescidas na continuação da missão em Lisboa.

Assim sendo, a minha companhia integrou-se no Agrupamento e seguiu para Lisboa onde, conjuntamente com a do RI14, ficou de intervenção no Quartel General do Governo Militar até ao dia 29 de Abril, face ao empenhamento de algumas unidades nos objectivos a cumprir na capital e à não adesão de outras ao Movimento, entre as quais o RAL1 (RALIS).

Nesse período, a nossa principal intervenção teve lugar no Jornal Época para permitir a evacuação e segurança dos jornalistas e funcionários que se encontravam cercados e ameaçados por populares.

Coronel, Infantaria (Reformado)